Em uma cidade silenciada pelas gangues, todos conseguem ouvir o zumbido de um helicóptero no meio da noite – um breve sinal de que alguém com muita sorte conseguiu deixar Porto Príncipe.

A CNN conseguiu pousar de helicóptero na capital haitiana na sexta-feira (15), após dias de planos intermitentes que exigiam medidas detalhadas de segurança e muitas etapas de aprovação diplomática. Desde a nossa visita anterior ao Haiti, no mês passado, a situação piorou drasticamente.

O primeiro-ministro interior, Ariel Henry, anunciou a sua renúncia, mas não está claro quem irá preencher o vazio de governo ou quando. O prometido governo de transição ainda não se concretizou e os planos para uma força de estabilização liderada pelo Quênia estão em um limbo.

Hoje em dia, os civis saem raramente de casa em Porto Príncipe, onde as batalhas diárias entre a polícia e as gangues lançam nuvens de fumaça no ar, e os tiros ecoam pelas ruas tranquilas.

As avenidas, que normalmente estariam lotadas de carros e vendedores, estão vazias, e os táxis compartilhados, utilizados como transporte público na cidade, quase nunca ficam cheios.

Restam poucos lugares para ir. Todas as estradas com saídas da cidade estão bloqueadas por gangues, assim como o acesso ao porto, e o aeroporto internacional da cidade foi fechado, com as paredes cheias de buracos de bala.

Nada entra também; os supermercados da cidade estão ficando sem alimentos. Os postos de gasolina estão sem combustível. Os hospitais estão com falta de bolsas de sangue.

Na noite de sexta-feira, tiros puderam ser ouvidos nas colinas da capital. Mais abaixo, uma operação policial também estava em andamento no território do notório líder de gangue e ex-policial Jimmy Cherizier, também conhecido como “Barbeque”.

A Organização das Nações Unidas está trabalhando para criar uma ponte aérea entre Porto Príncipe e Santo Domingo, no país vizinho República Dominicana, que transportaria os suprimentos vitais para a cidade.

Mas, por enquanto, a única coisa que chega a Porto Príncipe são os helicópteros de evacuação privados — um lembrete amargo da grande desigualdade que assola o Haiti há décadas. A maioria das pessoas vive com menos de quatro dólares por dia.

Centenas de pessoas estão colocando seus nomes em listas para fugir de Porto Príncipe por via aérea, contaram vários pilotos à CNN — uma pequena classe de estrangeiros ricos e diplomatas com recursos e rede para considerar fretar um voo privado. Um único assento em um deles atualmente pode custar mais de US$ 10 mil, quase R$ 50 mil.

Os helicópteros podem ser ouvidos regularmente à noite e pela manhã, relatam os moradores de Porto Príncipe, com uma diferença audível entre os pequenos helicópteros privados que chegam da República Dominicana e os helicópteros militares maiores, que se acredita serem usados ​​por algumas missões diplomáticas, incluindo os Estados Unidos.

No entanto, nenhuma quantia de dinheiro ou planejamento pode eliminar o perigo de voar por uma zona de guerra, e os pilotos dizem que estão cada vez mais cautelosos ao realizar os voos de evacuação. De um dia para o outro, não dá para saber quando o próximo voo será possível.

Dois pilotos afirmaram à CNN que ouviram tiros enquanto realizavam uma evacuação. “Quando você ouve o ‘ping, ping, ping’ das balas passando, você não quer mais fazer isso”, desabafou um deles.

“Na minha opinião, toda a cidade é governada por gangues”, apontou outro, mostrando à CNN um mapa da densa expansão urbana de Porto Príncipe, onde ele diz ser incapaz de prever de onde o fogo poderá vir.

80% de Porto Príncipe é atualmente controlada por gangues, segundo estimativas da ONU. O Haiti entrou em crise no início de março, quando os grupos pediram a renúncia do primeiro-ministro Henry e do seu governo. Pela primeira vez, segundo fontes de segurança, gangues e coligações rivais começaram a causar estragos coordenados, dividindo o território para avanços táticos.

A polícia nacional do Haiti lutou bravamente, mas com recursos limitados. Eles não podem estar em todos os lugares ao mesmo tempo — e eles próprios são, muitas vezes, os alvos, com vários distritos policiais atacados ou incendiados nas últimas duas semanas.

A atual crise de segurança do Haiti é a mais devastadora que o país enfrentou nos últimos anos — uma escalada impensável para um país que há muito tempo sofre cp, violência crônica, crises políticas e secas, que deixam cerca de 5,5 milhões de haitianos — cerca de metade da população — precisando de assistência humanitária.

Henry chegou ao poder em 2021, após o assassinato do então presidente do Haiti, Jovenel Moïse. Ele não foi eleito pelo povo. O seu mandato foi marcado por meses de violência crescente entre gangues, que se tornou mais intensa depois do interino não ter conseguido realizar eleições no mês passado, dizendo que a insegurança do país comprometeria a votação.

Na segunda-feira, no meio de uma enorme pressão para estancar a violência em Porto Príncipe, Henry anunciou a sua demissão. Ele entregaria o poder a um conselho de transição, afirmou ele. Mas, no final da semana, o conselho ainda não tinha sido formado.

Uma última esperança para Porto Príncipe poderá ser o envio de tropas estrangeiras para reforçar a polícia e confrontar os bandos, em uma missão solicitada por Henry, com sinal verde do Conselho de Segurança da ONU e liderada pelo Quênia.

Restaurar a paz nas ruas seria o primeiro passo para permitir que o Haiti realize uma votação e eventualmente escolha um novo governo. Na verdade, quando a violência eclodiu na semana passada, Henry estava no Quênia para assinar um acordo para enviar 1.000 agentes da polícia queniana para o Haiti.

Mas, à medida que o caos continua, as esperanças para o envio de ajuda a Porto Príncipe estão desvanecendo. Após o anúncio da renúncia de Henry, o Quênia informou que o envio das suas forças seria adiado, citando a instabilidade vivida pelo governo haitiano.

Fonte: CNN Brasil

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