Ação do CER Barra alia reabilitação oral e acolhimento com entrega de próteses dentárias a 12 familiares de crianças com autismo

Foto: Bruno Concha/ Secom PMS

Texto: Eduardo Santos e Camila Vieira/ Secom PMS

Entre os cuidados com João, de 9 anos, e Joaquim, de 7, a professora Ediclea Barros, de 40 anos, encontra pouco tempo para olhar para a própria saúde. Os dois filhos têm Transtorno do Espectro Autista (TEA) e são acompanhados pelo Centro Especializado em Reabilitação (CER) Barra. Nesta terça-feira (20), ela encontrou, no mesmo espaço que acolhe as crianças, uma oportunidade de também ser cuidada, com a entrega de próteses dentárias. Ediclea está entre as 12 pessoas beneficiadas, 11 mães e um avô, nesta etapa da ação da Prefeitura de Salvador, por meio da Secretaria Municipal da Saúde (SMS).

Com a proposta de cuidar de quem cuida, a iniciativa alia reabilitação oral, acolhimento e atenção à autoestima de mulheres que, em sua maioria, são mães solo e enfrentam dificuldades para reservar tempo para consultas e tratamentos. Segundo a professora, conciliar o próprio atendimento com o acompanhamento dos filhos faz diferença em uma rotina dedicada, em grande parte, às necessidades deles.

João é não verbal e tem nível três de suporte, enquanto Joaquim tem nível dois. Procurar assistência em outro local exigiria um tempo que ela tem dificuldade de reservar. “No dia a dia, a gente acaba não pensando na gente. Estar em um lugar que já apoia os nossos filhos e ter essa atenção para nós, enquanto mães, é importante”, relatou Ediclea.

Para ela, o acolhimento ajuda a enfrentar uma rotina que pode ser solitária e desafiadora. “Ter esse lugar que acolhe os nossos filhos e nos acolhe em todos os sentidos é extremamente importante”, disse, emocionada. 

Aos 46 anos, Ivanilda Souza, mãe de três filhos, um deles uma criança atípica, também encontrou na iniciativa uma oportunidade de retomar o cuidado consigo. Sem condições financeiras de realizar o tratamento por conta própria, ela conta que a falta de um dente provocava dificuldade para mastigar e constrangimento ao sorrir.

Ivanilda chegou à ação a partir de um atendimento em uma Unidade de Saúde da Família (USF). “Já estava me incomodando, sentindo a falta do dente para mastigar. Para mim, foi muito bom. Essa ação é maravilhosa, dá uma autoestima e a gente fica com mais prazer de sorrir”, afirmou.

A entrega faz parte do trabalho de atenção às famílias desenvolvido pelo centro, que identificou a necessidade de ampliar o acesso ao cuidado odontológico. Com apoio de parceiros, os beneficiários receberam próteses produzidas com tecnologia digital e planejamento individualizado.

Para a subsecretária municipal da Saúde, Edriene Teixeira, a iniciativa reconhece necessidades que também precisam ser acolhidas pela rede de assistência.

“O objetivo é cuidar de quem cuida. A mãe de uma criança neurodivergente nem sempre tem tempo de ir ao médico, ao dentista ou de fazer terapia. A mãe também precisa de apoio psicológico”, destacou.

Segundo a subsecretária, o acompanhamento já inclui espaços de escuta e acolhimento emocional. A perspectiva é ampliar as ações destinadas às mães, contemplando outras necessidades de saúde, como atendimento ginecológico e mastológico.

Tecnologia – Responsável pelo trabalho odontológico, Sergio Ribeiro, cirurgião-dentista há quase 30 anos, explicou que a produção combina escaneamento intraoral, moldagem e planejamento em software.

As próteses são confeccionadas em impressoras 3D, com resinas biocompatíveis, considerando as características e as necessidades de cada paciente. De acordo com o profissional, uma das vantagens é a redução do número de consultas, o que facilita a conclusão do tratamento para quem precisa conciliar o próprio atendimento com os cuidados dos filhos.

“É uma captura individualizada, personalizada para cada paciente. Fazemos toda a modelagem em um software e, depois, a fabricação em impressoras 3D. Conseguimos reduzir de sete ou oito sessões para duas ou três”, pontuou o especialista em Radiologia e mestre em Odontologia Digital.

Sérgio também destacou que o planejamento digital facilita eventuais ajustes. Como as informações ficam registradas no sistema, é possível modificar o projeto e produzir uma nova prótese quando necessário, conforme avaliação profissional. A reabilitação oral busca recuperar funções como a mastigação, além de contribuir para o conforto e a autoestima dos beneficiários.

Alcance – O diretor do CER Barra, Roberto Novaes, afirma que a iniciativa surgiu a partir da convivência da equipe com as mães e da identificação das dificuldades enfrentadas por elas para acessar tratamentos odontológicos.

“Nós temos um trabalho com as mães atípicas voltado à atenção integral. Nesse processo, percebemos essa dificuldade com a questão odontológica, principalmente com as próteses. Resolvemos devolver o sorriso a essas mães e desenvolvemos esse trabalho com parceiros”, relatou.

Segundo o diretor, a sobrecarga e a rede de apoio reduzida podem fazer com que essas mulheres adiem os próprios cuidados. Por isso, o acompanhamento oferecido pelo centro busca alcançar também os familiares das crianças atendidas. “Nós não podemos reduzir o atendimento ao diagnóstico da criança. Precisamos cuidar da família”, ressaltou.

O trabalho voltado às famílias inclui assistência psicológica e psiquiátrica, rodas de conversa e acompanhamento nutricional. A unidade também pretende ampliar as atividades com profissionais de educação física e fisioterapia.

O pedreiro Aurelino das Neves, de 64 anos, é um exemplo desse cuidado ampliado. Frequentador da unidade para acompanhar o neto António, de 7 anos, ele também recebeu uma prótese dentária e celebrou a oportunidade de realizar um tratamento que não conseguiria custear. “Estou muito feliz, de sorriso novo. Saí daqui com um sorriso mais bonito e de uma forma que eu não teria como pagar sem essa ajuda”, contou.

Estrutura e atendimento – O Centro Especializado em Reabilitação da Barra oferece assistência em reabilitação física e intelectual a 900 usuários por mês. A estrutura conta com 26 salas de atendimento, área de convivência e sala para atividades, entre outros espaços. Ao todo, 35 profissionais atuam no acompanhamento dos pacientes, com uma abordagem multidisciplinar e elaboração de um Projeto Terapêutico Singular, definido conforme as necessidades de cada pessoa.

A unidade atende pessoas com comprometimentos físicos, neurológicos ou sensoriais, incluindo amputações, paralisia cerebral, nanismo e deformidades congênitas ou adquiridas que dificultem o desempenho funcional.

Também oferece assistência a usuários com dificuldades de aprendizagem ou compreensão decorrentes de condições sindrômicas, lesões cerebrais e alterações cognitivas ou sensoriais. O acesso ao CER ocorre por meio da regulação municipal. A partir do acolhimento, a equipe identifica as necessidades dos pacientes e de suas famílias, orientando os encaminhamentos e as ações de apoio.

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